Asas para quem deseja voar

Programa Acompanhante da Pessoa com Deficiência promove grupo de apoio para o ingresso no mercado de trabalho
 
 
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Senhor Almir exibe, orgulhoso, seu crachá
 
 
Em agosto de 2017, o grupo de empregabilidade do APD CER II Tatuapé completou um ano – e já tem motivos para comemoração: das 30 pessoas que participaram do grupo em algum momento, 14 estão empregadas. A iniciativa se deu a partir da percepção, por parte da equipe, do interesse dos usuários acompanhados pelo Programa em trabalhar, assim como das barreiras que eles encontravam por causa da deficiência intelectual.

Para prepará-los para o mundo corporativo, a equipe de reabilitação, composta de técnicos das áreas física e intelectual, passou a reunir os interessados uma vez por semana para orientações diversas, como avaliação de perfil (tímido, extrovertido, sensível etc.), constatação de autonomia para o uso de transporte público, verificação e retirada de documentação, explicações sobre a maneira correta de se comportar em uma entrevista de emprego, relação com a chefia e os colegas de trabalho, confecção de currículo e até criação de e-mail.

Uma vez contratado, o usuário passa a fazer parte de outro grupo, o dos já empregados, que se reúnem com a equipe do APD uma vez por mês. Nesses encontros, os participantes têm liberdade para contar como está sendo sua experiência e relatar eventuais dificuldades que estejam enfrentando.

Procurar pelo superior imediato, dialogar com os colegas e não enfrentar um cliente que está nervoso são alguns dos assuntos abordados durante as reuniões. Questões mais simples também são levantadas, como a adaptação à nova rotina, especialmente nos casos de quem estuda e trabalha; a preocupação com sua autoimagem – o uniforme deve estar limpo – e com a higiene pessoal; e o autocuidado.

Há ainda a abordagem de outros temas de interesse geral, como o direito a férias e descontos do INSS, além de orientações sobre planejamento financeiro, o que já beneficiou R., de 39 anos. O usuário trabalha na Preçolandia desde janeiro de 2017 e já sentiu o prazer de adquirir produtos com o próprio salário. Tem paixão por tênis, aquisição que faz quase mensalmente, e teve a satisfação de presentear sua mãe com um secador de cabelos. E R. tem planos maiores: está juntando parte do dinheiro que recebe para fazer um cruzeiro.

Dona I., de 50 anos, tem três filhos, sendo dois deles menores de idade e institucionalizados em abrigo por causa das dificuldades apresentadas pela mãe, não podendo retornar para o lar até que ela se organize. Hoje, após participação no grupo, dona I. está devidamente empregada no Supermercado Dia e já tem conseguido organizar melhor sua vida.

Os planos de dona I. é poder reunir todos em casa, mas é necessário um passo de cada vez. Ela já completou um mês no serviço, e agora é seguir em frente para, quem sabe num futuro próximo, conseguir reconstruir seu lar. O sonho, que antes era quase impossível, hoje está mais próximo – os domingos se tornaram especiais agora que os filhos se reúnem com a mãe em sua casa para um verdadeiro almoço em família. “Enquanto ela não acreditava mais ser possível, fomos trabalhando”, observa Mariela Bidoia, Enfermeira Supervisora.

A articulação da equipe do APD Tatuapé culminou em oportunidade de trabalho na própria SPDM/PAIS. O senhor N., de 54 anos e ausente do mundo corporativo há sete, atua em uma AMA como Auxiliar de Apoio Administrativo há seis meses. Quando questionado sobre o que mudou em sua vida depois do emprego, declara: “Hoje estou animado, convivo com mais pessoas, gosto do ambiente. A gente se sente útil, fora o fato de que estou ajudando minha irmã financeiramente”.

Outro caso que causa orgulho é o de J., de 19 anos, que trabalha em uma Droga Raia há cinco meses e já faz planos para o uso de seu salário: a estudante quer pagar a própria viagem de formatura e a de M., de 18 anos. As duas cresceram juntas no abrigo onde moram até hoje. “Para a gente é gratificante ao extremo ver que estão ganhando asas”, declara Gabriela Saravalle, Terapeuta Ocupacional. “Eles ouvem tanto ‘não’, ‘não vai andar’, ‘não vai falar’, ‘não vai aprender’... Quando você começa a mostrar que eles podem, podem sair de casa, trabalhar... A vida deles não fica rodando em volta da deficiência.”

O senhor Almir, de 42 anos, tem muito orgulho de trabalhar no mercado Dia e vem se mostrando bastante comprometido com o serviço. “Às vezes até ajudo a abrir o mercado”, afirma o profissional, referindo-se ao horário em que chega ao local.

Os profissionais do APD têm ainda o cuidado de, em casos pontuais, promover uma conversa com o empregador, orientando-o sobre o novo integrante de sua equipe. “O gestor tem de estar aberto, ter um olhar diferenciado. A inclusão é ‘fácil’, a retenção é que é difícil”, observa Gabriela.

O próximo encontro do grupo já tem pauta definida – o que foi feito em comum acordo com os participantes. O assunto em questão será relacionado a transações bancárias: como utilizar o caixa eletrônico, o que são tarifas, a diferença entre cartão de débito e de crédito, e como abrir e manter uma conta poupança.

O que parece óbvio para alguns pode ser de difícil compreensão para outros, e é aí que entra o trabalho tão especial do Programa Acompanhante da Pessoa com Deficiência, cujo objetivo é ajudar o usuário a resgatar sua identidade e conquistar sua autonomia, proporcionando asas para quem tem vontade de voar. “A gente não trava no ‘não’, a gente acredita no que faz. Quem tem a ganhar é a população, a sociedade, os usuários. Todos ganham”, conclui Mariela Bidoia, Enfermeira Supervisora.